Escultura do paranaense João Turin é o presente oficial do Brasil para o papa Francisco

João Turin
(1878 – 1949)

A escultura animalista, que no Séc. XIX um artista de gênio como Barye elevara à condição de grande arte, entre nós brasileiros não teria tido escultores, não fora João Turin. De fato, esse escultor paranaense, a despeito do muito que produziu em quase cinqüenta anos de trabalho, destacou-se acima de tudo pelas onças, tigres, leões, tapires, cobras, cães e outros animais, ferozes ou domésticos, que imortalizou no bronze, representados ora em repouso, ora em acirrados combates, sempre com agudo senso de observação, e assumindo evidentes conotações simbólicas.

" Não realizei tudo o que desejava o meu sonho de artista. Era grande demais para as minhas forças e pelas pedras que encontrei no caminho. Fiz o que pude com os meios que tive. "

Nascido em Porto de Cima, um lugarejo de Morretes, no litoral do estado, filho de imigrantes italianos, João Turin descobriu a escultura menino ainda, de modo singular: recobria pernas, tronco e braços com argila, deixava-a secar e depois a removia, para brincar com os moldes do próprio corpo assim obtidos. Aos nove anos mudou-se com os pais para Curitiba, onde seria sucessivamente ferreiro, marceneiro e torneiro antes de descobrir a verdadeira vocação. Nos primos anos do Séc. XX, depois de ter sido seminarista e de freqüentar a Escola de Artes e Indústrias de Mariano de Lima, Turin era presença constante nas passeatas de intelectuais e operários que, inspiradas na utopia anarco-socialista de Giovanni Rossi na Colônia Cecília, de tempos em tempos sacudiam as ruas da pacata capital; mas essa experiência de agitador social na mocidade não teve desdobramentos futuros.

Em 1905, com bolsa de estudos do Governo do Paraná, João Turin parte para Bruxelas e se matricula na Real Academia de Belas Artes, onde já se encontra o amigo Zaco Paraná, passando a estudar com o mesmo professor deste, o famoso Pierre-Charles Van der Stappen, vulto proeminente dos grupos de vanguarda belgas Lês Vingt e Libre Esthétique. A opção de um e outro escultores por Bruxelas, destino pouco usual para artistas brasileiros, não foi casual: deveu-se aos engenheiros belgas que trabalhavam na ferrovia do Estado, como François Gheur e Alphonse Solheid, os quais viram, nos dois adolescentes, o estofo de futuros artistas.

Depois de deixar a Real Academia, em 1909, Turin ainda permaneceu cerca de dois anos em Bruxelas, além de visitar a Itália, Holanda, Espanha e Portugal, até se transferir a Paris em fins de 1911. Na capital francesa, onde viveu os próximos dez anos, expôs algumas vezes no Salom des Artistes Français, tendo obtido no ano de 1912 menção honrosa, com “Exílio”. Mas eram tempos de guerra, e fora uma ou outra comissão – como a que se lhe apresentou em 1917, para executar um relevo em pedra destinado a uma igreja de Loireau, na Normandia – não havia clientes nem encomendas, muito menos para artistas estrangeiros. Não é de estranhar assim que pouco se saiba dos duros anos parisienses de Turin, durante os quais conheceu contudo Rodin, Modigliani, Isadora Duncan, Claude Debussy (de quem fez a efígie em baixo-relevo) e outras personalidades.

Em fins de 1922 o artista retorna ao Brasil e de novo se fixa em Curitiba. Deixara em Montparnasse, no ateliê da Rue Vercingentorix cedido a Brecheret, boa qualidade de obras, pois sua intenção, que nunca se concretizou, era voltar a Paris o mais breve possível. Integrado em definitivo ao discreto ambiente artístico-cultural da capital paranaense, João Turin doravante produzirá grande número de monumentos, estátuas, bustos, relevos e inclusive pinturas, cerâmicas e ilustrações, detacando-se entre os monumentos os dedicados a Gomes Carneiro (1927, Lapa), Rui Barbosa (1936, Praça Santos Andrade) e à República (1938, Praça Tiradentes), os dois últimos em Curitiba. Seria ainda um dos idealizadores em 1923, junto aos pintores João Ghelfi e Lange de Morretes, do chamado estilo paranista de ornamentação arquitetônica, baseado na estilização do pinheiro e de outros elementos da fauna e da flora paranaenses e concretizado em capitéis, ânforas, floreiras e outros objetos utilitários.

Marcado durante os anos de formação e aperfeiçoamento, em Curitiba e Bruxelas, por influências simbolistas, pelo Art Nouveau e o Art Déco, movido pela admiração a escultores como Barye, Meunier, Minne, Rodin, Bourdelle e Maillol, João Turin permaneceu impermeável, e mais que isso, hostil à renovação estética ocorrida já nos anos iniciais do Séc. XX. O que de melhor produziu não são os monumentos, bustos e retratos, convencionais por sua própria natureza, mas as numerosas representações de animais, boa parte delas conservada na Casa João Turin em Curitiba, nas quais, a despeito da fidelidade anatômica e das proporções corretas (o que nem sempre se observa quando trata a figura humana), não é tanto o animal em si que importa, mas sim o que simboliza, tanto que para representar o Marumbi, maciço da Serra do Mar localizado próximo à cidade natal, não encontrou forma melhor que a de dois tigres em furioso embate, magníficos de força, agilidade e beleza.

José Roberto Teixeira Leite - Curador da Exposição

Animalist sculpture, which in the 19th Century a genius such as Barye had elevated to the stature of great art, would not have representatives amongst us Brazilians were it not for João Turin. In fact, this sculptor from Paraná, despite his artistic output during almost fifty years of work, was renowned above all for the jaguars, tigers, lions, tapirs, snakes, dogs, and other animals, both wild and domestic, which he made immortal in bronze and were represented sometimes at rest, sometimes in fierce fights, always showing an acute sense of observation and assuming evident symbolic connotations.

" I did not achieve all that my artist’s dream wished I did. It was too great for my strength and the pebbles I found on the way. I did what I could with I had at my disposal. "

Born in Porto de Cima, a village in Morretes, on the state’s coast, the child of Italian immigrants, João Turin discovered sculpture when he was still a boy, in a singular manner: he covered his legs, torso, and arms with clay, let it dry out and then removed it, in order to play with molds of his own body. At nine years of age, he moved to Curitiba with his parents, where he would be a blacksmith, then a cabinet-maker, then a lathe worker. In early 20th Century, after having studied at a seminary and having attended the School of Arts and Industries owned by Mariano de Lima, Turin was a constant presence in demonstrations by intellectuals and workers who, inspired by Giovanni Rossi’s anarcho-syndicalism utopia at the Colônia Cecília, from time to time caused ruckus in the streets of the quiet capital; but this experience as a social agitator during his youth did not have future developments.

In 1905, thanks to a scholarship provided by the government of the state of Paraná, João Turin leaves for Brussels and enrolls at the Académie Royale des Beaux-Arts de Bruxelles, which his friend Zaco Paraná is already attending, where he begins studying under the guidance of Pierre-Charles Van der Stappen, a prominent member of Belgian vanguard art groups Lês Vingt and Libre Esthétique. The option made by both sculptors for Brussels, an unusual destination for Brazilian artists, was not by chance: it was because Belgian engineers who worked in the construction of a railway in the state, such as François Gheur and Alphonse Solheid, who saw in the two adolescents the stuff of future artists.

After leaving the Académie Royale, in 1909, Turin stayed in Brussels for around two years, having visited Italy, Holland, Spain, and Portugal, until he moved to Paris, at the end of 1911. In the French capital, where he lived during the following ten years, he took part of the Salon des Artistes Français, where he received, in 1912, a honorable mention with his work “Exílio”. But those were wartimes, and except for one or another commission — such as the one he received in 1917 to execute a relief in stone for a church in Loireau, in Normandy — there were neither clients nor commissions, much less to foreign artists. Thus it is not surprising that little is known about the hardships Turin faced in his Parisian years, during which he met, however, Rodin, Modigliani, Isadora Duncan, and Claude Debussy (of whom he made a bas-relief effigy) among other personalities.

At the end of 1922, the artist returns to Brazil and again settles in Curitiba. He had left in Montparnasse, at his workshop in the Rue Vercingentorix which was relinquished to Brecheret, a great deal of his works, for his intention, which did not materialize, was to return to Paris as soon as possible. Definitively integrated to the discreet artistic-cultural environment in Curitiba, João Turin henceforth will produce a great number of monuments, statues, busts, relieves, and even paintings, pottery, and illustrations, amongst the monuments, stand out the ones dedicated to Gomes Carneiro (1927, Lapa), Ruy Barbosa (1936, Santos Andrade Square), and to the Republic (1938, Tiradentes Square), the latter two in Curitiba. He would also be one of the masterminds, in 1923, along with painters João Ghelfi and Lange de Morretes, of the so-called paranista style of architectural ornamentation, based on the stylization of pine trees and other elements of the fauna and flora from Paraná, and materialized in capitals, amphorae, planters, and other utilitarian objects.

Marked during his years of formation and improvement, both in Curitiba and in Brussels, by symbolist influences, by the Art Nouveau and the Art Déco, moved by an admiration of artists such as Barye, Meunier, Minne, Rodin, Bourdelle, and Maillol, João Turin remained impermeable, and more than that, even hostile to the esthetic renewal that occurred in earlier 20th Century. His best output is not the monuments, busts, or portraits, which are conventional by their own nature, but rather the numerous representations of animals, a great deal of which is conserved at the Casa João Turin museum in Curitiba, in which, despite the anatomic fidelity and right proportions (which is not always observed in regards to the human figure), is not the animal itself that matters, but what it symbolizes, so much so that in order to represent the Marumbi, a peak in the Serra do Mar mountains which is located near his hometown, he did not find a better way than two tigers engaged in furious fight, magnificent in their strength, agility, and beauty.

José Roberto Teixeira Leite - Curador da Exposição