Por intermédio de seu amigo, o pintor Gabriel-Charles Girodon, João Turin executou em 1917 para a igreja de Saint Martin, em Condésur-Noireau (Calvados, Baixa Normandia, França), o baixo-relevo “PIETÁ”, em homenagem aos soldados e cidadãos mortos na Guerra de 1914, acompanhada da legenda Venez et Voyez s´il est une douleur semblable à la mienne (Vinde e vede se existe uma dor que se compare à minha).

 A obra ainda se encontra na milenar igreja, após ter escapado incólume aos bombardeios maciços ocorridos por ocasião da invasão da Normandia a 6 de junho de 1944 pelas tropas aliadas, quando 95% da pequenina cidade foram arrasados, e a referida igreja severamente danificada. De altíssima qualidade e reveladora do virtuosismo de Turin na escultura por desbastamento, sua Pietà representa a cena pungente de Jesus recém-descido da cruz, tendo a seu lado por terra a coroa de espinhos, sustentado ao colo pela Virgem Maria representada sob os traços de uma jovem mulher dilacerada pela dor, que com a mão direita estendida, oferece à contemplação dos fiéis o corpo sem vida do Deus que se fez homem. Como praticamente em todas ou quase todas as Pietàs, sente-se, nessa de Turin, o eco da de Michelangelo, aliado à tênue influência Art Déco.

 Acrescente-se que, sob os traços da Virgem, Turin teria se inspirado nos da célebre dançarina Isadora Duncan (a semelhança é evidente), hipótese ainda mais plausível não só porque Isadora vivia em Paris ao tempo em que lá se achava nosso escultor e já servira de tema a muitos outros artistas, entre eles Rodin e Bourdelle, como principalmente porque em 1913 ela perdera seus dois filhos afogados no Sena, perda imensa que a aproximaria da de outra mãe: Maria, ante o Filho morto.

 O molde em gesso da famosa escultura faz parte do acervo do Ateliê João Turin. O original em bronze da Pietá faz parte das peças que compõe a exposição ‘João Turin – Vida, Obra, Arte’ e estará ao alcance dos olhos dos visitantes do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, a partir de 28 de Maio.

Confira aqui o documentário que mostra o resgate da obra original na França.