João Turin

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Escultura do paranaense João Turin é o presente oficial do Brasil para o papa Francisco

A escultura “Frade” foi escolhida pela presidenta Dilma Rousseff para ser entregue ao sumo pontífice em sua passagem pelo País

A escultura Frade Lendo será o presente oficial do Brasil ao papa Francisco durante sua primeira visita ao País, de 22 a 28 de julho. Criada pelo escultor paranaense João Turin nos anos 40, a estátua de 44 centímetros de altura representa um frade e foi aprovada pela própria presidenta Dilma Rousseff, que conheceu a obra em junho, durante uma visita a Curitiba.

A escolha da escultura para presentear o sumo pontífice marca também o início de uma nova fase da história da obra do artista. Atualmente, o acervo completo de Turin passa por um processo inédito de resgate e restauro. Além de ter todas suas esculturas restauradas, peças inéditas como o “Frade”, que até hoje só existiam em seus moldes originais em gesso estão sendo fundidas no Ateliê João Turin, em Curitiba. Em paralelo, documentos deixados pelo artista estão sendo restaurados e um catálogo razonado, escrito pelo crítico João Roberto Teixeira Leite, será lançado. Para coroar a retomada, sua obra vai ganhar merecida visibilidade nacional e internacional com uma grande exposição, que tem início em junho de 2014, com mostra dedicada a seu legado no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba. É a primeira vez no Brasil que se faz um resgate desta dimensão de um único artista.

Nascido em Morretes, no Paraná, em 1875, João Turin é um dos escultores mais importantes do estado. “Ele é de uma importância ímpar. Também nacionalmente. Em geral, conhecemos mais a obra dos artistas do eixo Rio – São Paulo. Ainda que tenha tido reconhecimento no Paraná, e no meio artístico, no Salão Nacional de Belas Artes, do qual participou e foi premiado, nunca teve o reconhecimento merecido. Está mais do que na hora de se (re)descobrir a obra de Turin. Ele é, por exemplo, o maior escultor de animais que o Brasil já teve. Ninguém esculpiu animais como ele. Seu traço rústico, um tanto antropofágico, é único”, conta Teixeira Leite. “Sem contar os monumentos que ele criou, presentes em cidades do Paraná; esculturas, que estão no Rio, na Europa, principalmente na França, onde viveu por dez anos, quando concluiu os estudos na Bélgica e se mudou para Paris, em 1910”, relembra.

Autor do catálogo João Turin – Vida, Obra, Arte, Teixeira também é curador da série de exposições dedicadas ao artista. O crítico ressalta que, além de ser precursor de mestres como o escultor Victor Brecheret, Turin foi um dos fundadores do movimento Paranista, que valorizava a cultura e os símbolos locais do Paraná, nos anos 20, quando a arte brasileira vivia a revolução do Movimento Modernista e se voltava para a valorização e para a definição de seu caráter e seus ícones nacionais. “O Paranismo valorizava o fruto da Araucária, o pinhão, e o elegeu como símbolo. Infelizmente não teve o reconhecimento merecido, que outros movimentos artísticos regionais tiveram durante o modernismo”, comenta Teixeira. “Seu legado é múltiplo. Ele era um artista completo. Além de seu talento para a escultura, trabalhou com arquitetura (projetou fachadas de várias casas, seu ateliê, seu próprio túmulo, inventou a coluna Paranista), design ( fez desenhos de moda, móveis, entre outros). Era um grande desenhista.”

Resgate

Adquirida pela família Lago, que adquiriu o acervo em 2011 de Jiomar José Turin, sobrinho do artista, a obra de João Turin passa atualmente por um processo de resgate e restauro inédito. “Este resgate vai refazer toda a trajetória que o Turin traçou, mas que morreu antes de concluir. Ele sempre pensou que voltaria para Paris, para concluir sua grande obra. Infelizmente não conseguiu. Mas tenho certeza de que ele aprovaria, por exemplo, o trabalho incrível que está sendo feito no Ateliê Turin”, comenta Teixeira.

"É a mais perfeita fundição que se possa imaginar, montada especialmente para que as obras que Turin deixou possam ser fundidas com perfeição", comenta o crítico. Segundo Israel Kislansky, "Devemos ainda dar atenção ao projeto de conservação e novas reproduções da obra de Turin. É uma das mais consistentes ações realizadas no país para a preservação da obra de um escultor que depende fundamentalmente da fundição em bronze e que possibilitou a criação da primeira fundição tecnologicamente moderna brasileira."

Sob influência da Art Nouveau, Art Deco, dos mestres belgas, de Rodin, Turin soube aproveitar suas referências para criar uma obra própria e romper com a tradição acadêmica. Seu trabalho fugia ao óbvio. “Ele quase não retrata a figura feminina, por exemplo. Em vez disso, retrata soldadeiros, animais, esportistas, jogadores de futebol. Tem uma simplicidade extremamente sofisticada”, analisa Teixeira. “Sempre foi um observador atento, ia à noite para o zoológico de Curitiba, para observar e desenhar os animais e, então, esculpir. Retrata com pureza a força e a soberania do animal, de forma muito natural.”

Biografia

Filho de imigrantes italianos de origem humilde, Turin nasceu em Porto de Cima, lugarejo de Morretes, litoral do Paraná. Teve uma infância tranquila no campo e foi durante as brincadeiras que descobriu a escultura, de maneira singular: recobria pernas, tronco e braços com argila, deixava-a secar e depois a removia, para brincar com os moldes do próprio corpo.

Aos nove anos se mudou com os pais para Curitiba, onde trabalhou como ferreiro, marceneiro e torneiro antes de descobrir a verdadeira vocação para a arte. Nos primeiros anos do século 20, após ter frequentado Escola de Artes e Indústrias de Mariano de Lima, Turin era presença constante nas passeatas de intelectuais e operários. Em 1905, com bolsa de estudos do Governo do Paraná, João Turin partiu para Bruxelas e se matriculou na Real Academia de Belas Artes, onde estudou com o famoso Professor Pierre-Charles Van der Stappen, presença de prestígio em grupos de vanguarda belgas. Depois de deixar a Real Academia, em 1909, o escultor ainda viveu por mais cerca de dois anos em Bruxelas.

No meio Tempo, aproveitou para visitar a Itália, Holanda, Espanha e Portugal, onde, a cada viagem, aprendia e absorvia mais sobre os grandes mestres da arte, até que, em fins de 1911, mudou-se para Paris. A decisão mudou sua vida completamente. Na capital francesa, onde viveu os dez anos seguintes, expôs algumas vezes no Salon des Artistes Français, em que, em 1912, recebeu uma menção honrosa pela obra Exílio. Apesar de seu talento estar cada vez mais desenvolvido e sua obra cada vez mais madura, aqueles eram tempos de guerra. Em meio à crise, salvo uma ou outra comissão, não havia clientes nem encomendas, muito menos para artistas estrangeiros.

Não é de estranhar, portanto, que pouco se saiba dos duros anos parisienses de Turin, durante os quais foi vizinho e contemporâneo de mestres como Rodin, Modigliani, Isadora Duncan Claude Debussy (de quem fez a efígie em baixo-relevo), Picasso, Chagall entre outras personalidades.

Finda a guerra, em fins de 1922, o artista retornou ao Brasil e passou a viver novamente em Curitiba. A partir de então, João Turin passou a produzir grande número de monumentos, estátuas, bustos, relevos e inclusive pinturas e ilustrações. Entre seus monumentos, destacam-se os dedicados a Gomes Carneiro (1927, Lapa), Rui Barbosa (1936, Praça Santos Andrade) e à República (1938, Praça Tiradentes), estes dois últimos em Curitiba.

Em consonância com o momento histórico do Brasil, que passava pela revolução modernista, foi, em 1923, um dos idealizadores, ao lado dos pintores João Ghelfi e Lange de Morretes, do chamado Estilo Paranista de ornamentação arquitetônica, baseado na estilização da araucária, o pinheiro paranaense. Ao lado de outros elementos da fauna e da flora do estado, a árvore se tornou símbolo do movimento e foi retratada em capitéis, ânforas, floreiras e outros objetos utilitários.